A cidade corre, assim como as pessoas que a completam. Carros, pedestres, compõem o cenário urbano e monótono. Muitos prédios, todos alinhados regularmente idênticos, lado a lado ao longo percurso asfaltado. O vento dançava em meus cabelos negros. Minhas mãos frias dentro dos bolsos da calça insistiam em se contrapor à tentativa de aquecimento. Meus olhos estavam distantes, vazios. Aquele ambiente já era familiar demais para que me fizesse desviar a atenção. Lembranças. O sonho. Verde, vermelho, amarelo, e verde novamente, marcava o semáforo. Os segundos se passavam mais rapidamente desde a última caminhada que houvera feito sobre a faixa listrada. Nada mais me importava naquele lugar, não mais. Isso me fizera lembrar do motivo que me levara ali. O sonho. Por um segundo desviam-se os olhares, o meu e o dele. Era como se a inquieta cidade desse lugar àquela cena, e em troca, recebesse o palpitar em meu peito. A imagem se congela. Meu olhar preso àqueles olhos. Aos olhos daquele que fizera de sua vida a minha razão. Naquele momento me senti inteira, mesmo estando ferida, ele era o único capaz de curá-la, e fora o principal motivo de tê-la aberto. Não! Eu estava alucinada. Nada mudaria o fato da dor vivida. Eu precisava seguir sozinha. A vida é dura demais para dar outra chance, e eu, mais ainda. E as contrações de meus pulmões me indicavam que a cidade anunciava o descongelamento da cena.As imagens antes congeladas começavam a se mover como em câmera lenta. Nossos olhos ainda fixos pareciam ser governados por impulsos nervosos vindos apenas de um ser. As imagens agora pareciam fotos antigas ordenadas, que abanavam a cidade de acordo com a movimentação gradual das cenas empilhadas. Segundo após segundo, a imagem tremida das seqüências rápidas das fotos que davam vida ao que parecia morto. O sonho.No rebentar-se das emoções cai-se a mascara que inibia a dor diante daquele momento que parecia eterno. E novamente a névoa tomou o lado esquerdo de meu peito. A névoa tomara toda a cidade. Em um rápido momento meus olhos já não encontravam mais o dele. Quando me dei por conta, regressava o caminho que havia percorrido. Minhas costas o encarava friamente. Com a face molhada pelas lágrimas e os olhos cegantes percebi algo em meu braço que me impedia de seguir. O sonho. Aquele anjo que um dia fora meu sossego, que criara a felicidade, o anjo das palavras reconfortantes, das fúrias apaixonantes, das juras entorpecentes, me segurava com suas asas como se quisesse me tirar daquele trans, retirar-me do buraco escuro ou me fazer delirar diante daqueles olhos que me observava fielmente. Minha respiração se acelerou em uma sintonia audível. Meu pensamento estava desfocado, extinto talvez. Então seus lábios ligeiramente se encostaram nos meus. Impossivelmente descritível – o doce aroma da pele dele, suas mãos me acariciando a face, a intensidade como ele prendia seu corpo ao meu. Era algo impossível para que pudesse ser humano. O sentimento que uniu nossas vidas viera de um lugar inimaginável, fora inventado unicamente para nós. Perfeitamente nosso. Seus lábios frios roçavam-se nos meus, e suas mãos deslizavam em meus cabelos. A formação de precipitado que cintilava no céu molhava nossos corpos e me fazia crer que aquele momento era verdadeiro, que o amor entre a gente era verdadeiro, mas que a dor também era. Que a ferida havia se cicatrizado independentemente da profundidade e que aquilo não era um sonho. Mas ele sim era meu sonho. O mais intenso e desejado sonho que agora se tornou real. Meu eterno imortal.
Paloma Nicolau